Emicida em Ação Publicitária da Nubank.

Em novembro de 2025, Emicida iniciou o lançamento de uma trilogia que, à primeira vista, soa como homenagem. Mas, à medida que o projeto avança, fica claro que há algo além: uma tentativa de retorno, ou talvez de reconciliação.

Se o Brasil se acostumou com o Emicida solar de AmarElo, o homem que agora reencontra as batidas secas e o papo reto dos Racionais MC’s é alguém em busca de raízes. Não é apenas uma homenagem musical, é uma investigação sobre quem ele se tornou após a partida da mãe e o peso de ser, para muitos, uma bússola moral em um país sem norte.

A relação de Leandro com o rap sempre foi um espelhamento. Se o grupo de Mano Brown foi o pai que a rua lhe deu, o pai biológico — um DJ que se perdeu no alcoolismo — deixou uma ausência que Leandro preencheu com rimas. Hoje, ele fala de seu passado sem a urgência da raiva. “Minha relação com ele foi de embates”, diz o rapper, com a calma de quem já não precisa mais lutar contra seus fantasmas, mas sim aprender a conviver com eles.

Quem observa a gestão da Laboratório Fantasma percebe que Leandro e seu irmão, Fióti, construíram mais do que uma gravadora, eles criaram um refúgio. Ali, as decisões de negócios têm o mesmo peso que as discussões sobre ancestralidade. Leandro transita entre planilhas e terreiros com a naturalidade de quem entendeu que a prosperidade só faz sentido se tiver alma.

A morte de Dona Jacira, no entanto, mudou a frequência dessa música. A mulher que “emanava algo que o fazia teimar” deixou um vazio que ele agora preenche com silêncio e novas composições. O novo trabalho não tenta ser um hino de estádio, é antes, uma conversa em tom baixo, quase íntima. Há áudios de família, fragmentos de memórias e a aceitação de que nem tudo precisa de uma solução imediata.

Ocupar espaços como o Theatro Municipal ou as páginas das grandes revistas não é mais uma novidade para ele. O desafio atual é outro: o direito de não ter todas as respostas. Emicida parece estar cansado do pedestal de “consciência do Brasil”. Ele quer o direito de ser apenas o Leandro, o homem que gosta de plantas, que cuida das filhas e que, às vezes, só quer ouvir um disco antigo sem precisar explicar o contexto sociológico daquilo.

No fim, a matéria sobre o Emicida é sobre o que estamos fazendo com o nosso tempo. Ele parou de correr contra o relógio para começar a caminhar ao lado dele. Perdoar o passado, para ele, não foi um ato de fraqueza, mas a única maneira de garantir que o futuro não fosse apenas uma repetição dos traumas de ontem. Leandro Roque de Oliveira sobreviveu ao personagem que criou. E, agora, começou a viver.

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